sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Nada

Queria escrever sobre ela
Sobre o bem que ela faz em mim
Escrever sobre meus arrepios
Meus calafrios, meus suspiros
Queria escrever sobre o mundo que preparei
Sob as medidas que eu mesmo criei
Mas nada me vem
Nem ela.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A Gueixa

Dizem que a gueixa conquista um homem com um único olhar. Mentira. É preciso mais que isso e ninguém é tão mundano. Mas derruba com o jeito de ser e falar, o sorriso, e a peculiaridade de sua beleza incerta buscando aprovação. A propósito, meu nome é Osmar e hoje vou contar minha historia para você. Sim, a historia é de amor, perda e dor claro. Afinal, pelo inicio da nossa... conversa deu para perceber que a gueixa é como uma sombra que entra na vida e de repente some por entre as arvores da floresta, se mantém por perto como um rio que você nunca encontra mas sempre ouve suas águas correndo.

Era uma vez...

Eu havia acabado de dar carona para dois amigos para irmos à livraria cultura. Eles dois andavam na frente conversando e eu um pouco atrás ainda guardando aquele maldito papel do estacionamento quando vi a Gueixa pela primeira vez. Porra, ela era bonita, mas ate ai estamos em São Paulo e aqui tem muitas assim. Na minha cabeça funcionava assim: eu olharia e por sorte receberia um olhar de volta. Eu iria sorrir e com mais sorte receberia outro sorriso. E assim a vida continuaria. Justo e simples. E de fato isso tudo aconteceu e ali eu pensei que tinha terminado. Meu casal de amigos continuou andando, atravessamos a rua e fomos para livraria. Passeamos, olhamos uns LP´s em uma estante. Rimos com os DVDs de series e desenhos antigos. Havia X-Men, House, Friends, Caverna do Dragão. Todos fantásticos.

Trinta minutos haviam passado. Eu estava rodando em algumas estantes já com um livro do Stephen King, um do Harlan Cobben e uma biografia do Aerosmith na mão quando a vi sentada em um dos pufes. A Gueixa. Na mão o livro o Lado Bom da Vida, que eu te digo que é pior que o filme homônimo. Não resisti e passei por perto, fiquei rondando sem saber o que fazer. Ela me viu. Trocamos mais olhares durante um tempo. O sorriso surgiu no rosto dela e ela se levantou. Veio na minha direção. Eu já não sabia o que fazer.

- Oi.

 -Oi.

 - Qual seu nome?

 - Osmar.

- Prazer, eu sou a Dani. Eu te vi la fora. E agora aqui. Esta me seguindo? – e riu da própria piada.

- Bom. Não sei. Talvez? – eu ri também. Queria quebrar o gelo daquela atitude corajosa dela e de pouca coragem minha.

- Seria bom eu ter um perseguidor assim, em plena quarta-feira. Você não é um perseguidor psicopata não ne? – e tornou a rir. Sua voz era suave, clara, clean. Fisicamente? Bom, tinha os olhos levemente puxados, era bonita com um lindo sorriso. Tinha mais ou menos 1,60 talvez, mas não sou tão bom com isso. Tinha um corpo bonito, mas acima de tudo tinha presença e isso que me encantou.

- Não, não. Zero psicopata. Eu posso parar de te seguir quem sabe...

- E ai qual a graça?

 - Quer, sei la, sair mais tarde?

- Toma. Fica com esse livro. Estou anotando meu telefone aqui. Eu quero o livro de volta ok. Me liga para combinarmos de você me entregar.

***

Eu e meus amigos sentamos em um café. Minha cabeça longe. Ele e sua esposa brincaram comigo. “Vi a menina conversando com você.” “Que isso hein cara. Romance em livraria. “ “Eu sou mulher e te digo. A menina é bonita.” Eu ria sem graça e só pensava em ligar. Só pensava nela.

***

Saímos à noite. Eu levei o livro. Ela estava com um batom vermelho que realçava sua boca. Parecia uma maçã. Eu estava conhecendo ela e ela a mim, então falamos de tanta coisa. Era musica, eram filmes que vimos e queríamos ver. De livros. Afinal nos conhecemos em uma livraria. Senti conforto naquele encontro, como se estivesse ali alguém além de um romance ideal.

Na segunda-feira seguinte voltei ao trabalho. Oito, nove, dez longas horas preso. E não conseguia encontra-la durante a semana. Não morávamos tão perto e o transito caótico das grandes cidades fazia tudo ficar mais difícil. E a solução eram os impessoais e às vezes mal interpretados e-mails. O mais engraçado é que tudo corria maravilhosamente bem. Ríamos, nos descobríamos. Família, historias, momentos passados. Às vezes ate planos de futuro.
Um dia, marcamos um almoço. Ela estaria por perto. E fui ate ela. Conversamos, rimos. Tudo dentro do script de uma grande amizade. E depois de uma hora e um pouco, voltei pra prisão. O mundo eletrônico separando a vida real. Decidi aquele dia ligar pra ela e sai mais cedo do trabalho. Peguei o carro e a busquei na porta do trabalho dela. Dirigi sem rumo. Ela sugeriu um motel perto. Seguimos para la.

- Olha não costumo fazer isso assim.

- Tudo bem – disse ela – sempre tem uma primeira vez. – e riu de si. Eu ri junto.

Tirei sua calça e sua calcinha de renda branca, pequena, dava contornos mais sexy´s impossíveis. Nos beijamos abruptamente. Eram mãos aqui e ali. Um ritmo cadenciado e depois frenético. Ela me sentou na cama e veio engatinhando ate mim. Como dizia a musica “Uma tigresa de unhas negras e iris cor de mel. Uma mulher, uma beleza que me aconteceu.” Seu quadril nu fazia o formato de uma pera e seus olhos atentos fixos para mim me enlouqueciam. Ela sabia como fazer e como enlouquecer. Foram bons momentos de sexo, descansos, risos e recomeços.

Ai, eu digo a você que a loucura me pegou e como toda historia que vale a diferença, foi ai que tudo ruiu. Eu queria mais, ela também. Mas eu pressionei demais. Eu não queria só o romance. Não me entenda mal. Quando queremos somente sexo, queremos um corpo. Mas todo corpo tem alma, tem alguém dono dele. Ai é fácil esquecer. Difícil é quando queremos a alma e ninguém é exclusivo. Discutimos por isso algumas vezes, e os malditos mal interpretados e-mails, que antes eram meu trunfo viraram a ruína. Um dia enviei um e-mail e a resposta nunca mais veio.

O mundo ai virou de cabeça para baixo. Lembrei-me de um texto que li do Amyr Klink, um grande navegador brasileiro sobre o barco quando virava. A vida era um barco virado e eu estava com a cabeça debaixo d’água.

Nunca a procurei, não sabia se devia. Se ela queria ou não. Eu apenas saia do trabalho e buscava noticias. Como ela estava e o que estava fazendo. Cheguei a ir à porta do trabalho dela para vê-la chegar ou sair. Nunca tive coragem de falar. O tempo foi passando, mas a paranoia não. Acho realmente que eu estava perseguindo-a e como um psicopata. È risível não é? Bom, é muito comum e mais frequente do que imaginamos.

Fiquei acompanhando-a por um tempo e martelei dentro de mim a musica do Charles Aznavour, Et Pourtant. A musica não sei cantar claro, mas a letra é assim e depois você traduz.

                                       Un beau matin, je sais que je m'éveillerai
                                         Différemment de tous les autres jours
                                      Et mon coeur délivré enfin de notre amour
                                                 Et pourtant, et pourtant
                                    Sans un remords, sans un regret, je partirai
                                       Loin devant moi, sans espoir de retour
                           Loin des yeux, loin du coeur, j'oublierai pour toujours
                                Et ton corps, et tes bras, et ta voix, mon amour


Fui fazer um curso de seis meses no Canadá. Larguei o emprego e fui de cara e coragem viver um novo mundo. Conheci canadenses, americanas, brasileiras. Trocava email com meu amigo. Isso, o mesmo da esposa que estava comigo na livraria. Ele me dizia como estava meu país. Namorei uma menina canadense por quatro meses e fui bem feliz. Aprendi muito e depois voltei. Se eu me esqueci da Gueixa? Não. Mas a vida andava se colocando no meio e os pensamentos se alternavam com intervalos maiores.

Um dia eu estava passeando pela Oscar Freire quando entrei numa loja de sapatos. Estava perto do aniversario da minha mãe e pensei em comprar logo. Ao entrar na loja, ali, experimentando um scarpin e uma bota de couro, e ai te confesso que a imaginei só com aquelas botas, estava a Gueixa. Nos olhamos um tempo e dessa vez eu tive a coragem de falar.

- Oi.

 - Oi.

- Você aceita um café?

- Não acredito que você continua me perseguindo – e riu da sua piada.

 - Posso te esperar la fora?

 - OK.

Fomos a um café e conversamos muito. Sobre tudo que aconteceu. Ela me disse que viajou. Que não quis responder meus emails. Que estava irritada. Mas que depois tudo passou e simplesmente a vida se colocou no caminho. Eu contei sobre a minha viagem. Não falei do que fiz ou do que pensei. Fingi tudo. Espero que ela também tenha fingido.

                         ‘Era só uma menina e eu pagando pelos erros que nem sei se cometi.
                                  Se eu queria enlouquecer, esse é o romance ideal’


Ela tagarelava como se nunca tivéssemos brigado. E eu adorava isso. Era como se talvez eu a tivesse comigo de novo. Psicopata batendo à porta? Sim, talvez. Acho que na verdade é difícil lidar com rejeição. Dói, falta ar. Alguns pequenos prazeres se perdem talvez. É difícil encarar isso, tem que ter estomago. Ela pediu um bolo. Eu voltei ao assunto, queria uma explicação real. Falei meus motivos. Tentei me explicar.

- Ta bom e ai?

 - Como e ai?

- O que quer com esse discurso? – e Dani estava séria, receosa.

- Você um dia disse que seus amigos podem pegar sua comida. Eu ainda posso?

 - Quer meu bolo?

                                                                        Et pourtant..
                                                           Pourtant, je n'aime que toi
                                                                        Et pourtant..
                                                          Pourtant, je n'aime que toi
                                                                       Et pourtant..
                                                          Pourtant, je n'aime que toi
                                                                      Et pourtant..


Dizem que a gueixa conquista um homem com um único olhar. Não passa da mais pura verdade.

domingo, 13 de abril de 2014

Erros

Me pergunto diariamente, por que tão errado?
Quando penso em acertar, só erro
Meto os pés pelas mãos, e atordoado
Ao invés de um suspiro, me sai um berro

Que coincidência estranha nós dois
De tanto nos acertarmos nos derrubamos
E meu erro, crasso, emudeço, pois
Não há de haver erro quando nos amamos

Ajoelho, e com as mãos na cabeça, desespero
Não há vida sem ti - não quero!
Rogo perdão, aos céus, a ti, prometo não errar

Nunca mais hei de tantos erros cometer
Engolirei cada palavra que não lhe for de prazer
Só e somente só você voltar a me amar

quinta-feira, 3 de abril de 2014

O Almoço (ou Bar Luiz)

O Almoço (ou Bar Luiz)


Resolvi me dar um almoço de presente. Não, não é uma data especial, é apenas um capricho que todo Homem deve se dar vez ou outra. Saí de Botafogo em direção ao centro, onde cresci. A Rua da Carioca, entre o Largo da Carioca e a Praça Tiradentes costumava ser o paraíso, e era para lá que eu me encaminhava, com sede de lembranças e uma fome um tanto castigante. Em meio ao novo comércio da Carioca, ainda se erguiam alguns recintos que fazem parte da nossa história. Em meio aos despercebidos cidadãos, ainda se vêem alguns da mais bela estirpe da cidade. Gosto de pensar que eu sou um desses. Um desses que tem apreço pelo que é tradicional, pelo que é belo, pelo que foi base do meu crescimento. Sigo, na direção da Praça Tiradentes, com passos lentos e observadores. Ao meu redor, noto entre tantas lanchonetes, lojas mal organizadas, o Bar Flora, ainda de pé, ainda forte. Mas não é ali meu destino, é um pouco mais a frente, entre a clássica loja de instrumentos À Guitarra de Prata e o clássico e decadente – desde sua criação – Cine Íris, onde passei parte de minha adolescência, buscando instrumentos para saciar meus prazeres – musicais e luxuriosos. O numero é 39, e o nome, é Bar Luiz. Fundado em 1887, quando Dom Pedro II ainda era Imperador e fingia governar o país, com outro nome, estabeleceu-se ali no 39 da Rua da Carioca em 1916, por problema de locação, já com o novo nome devido a lei de valorização da língua nacional de 1915. Dali, não se mudou mais. Claro que teria que ser ali, naquele recinto onde me fiz homem. Mas essa é outra história. Adentrei. Com a cabeça levantada, os pés em ponta e os olhos perdidos se depararam com meu ilustre amigo Gravata-borboleta. Seu nome é Jerson, e desde que me entendo por gente, ali, é ele quem me serve... perfeitamente. Quando o vi, já sabia que minha mesa estava pronta e a minha espera. Não sei se por interveniência divina, por acaso, ou mesmo por condição instintiva, não importa a hora, eu sempre chego lá cinco minutos antes de lotar. Eu não quero parágrafos nesse texto para não perder a continuidade, mas peço uma pausa, para um gole de cerveja e um adendo. À altura que estou sentado me alimentando saborosamente, faz-se uma fila enorme do lado de dentro e de fora do local, cheio de ávidos senhorios buscando saciar seu paladar. Retornando. Ao sentar-me na mesa, que no horário do almoço é enorme para uma pessoa, mas não cabe quatro, a velha recepção de sempre. Um abraço caloroso, meu chope gelado sem precisar pedir, o sorriso leve de Gravatinha e... peço o cardápio, para sua surpresa. Às vezes o peço somente por desencargo de consciência, ou metidez, já que o conheço de cor e salteado, de outros carnavais. Gravatinha se vai, desempenhar a mesma função para as outras mesas do seu quadrante. Passo a vista na carta, e como desconfiava minha intuição, a pedi somente por desencargo de consciência, ou metidez. O prato é o mesmo que peço a pouco mais de uma década. O suculento Empanado de Frango – acebolado – com batatas coradas (essa é a pedida do almoço, à noite os hábitos mudam), que degusto com um prazer quase infantil. Engraçado escutar do Gravatinha que ‘aquele meu amigo pediu a mesma coisa ontem’. Hábitos antigos dificilmente morrem. E, não diferente, já empanturrado, faço questão do pudim com ameixa, sem o qual meu almoço ali não está completo. Desde o momento que começo a comer o empanado, até o momento que peço para o Gravatinha trazer a dolorosa, abstraio tudo ao meu redor, com exceção do falatório das mesas, dos gritos dos outros gravatas, ‘me dá um claro’, ‘dois escuros e um garoto’, ‘pudim sem ameixa’, ‘frango’, ‘carne’, ‘bolinho de bacalhau’, ‘fecha mesa 4’, ‘viajando na mesa 17’, do tilintar de talheres nos pratos, dos gritos por lugares na porta. O resto, eu abstraio tudo. E me lembro, do meu amor, de velhos amigos e companheiros, hoje ausentes, bebedeiras memoráveis, fla-flus inflamáveis, choros, sambas, alegrias, tristezas, dias, noites e madrugadas. E com lágrimas nos olhos, pelo que está acontecendo com o estabelecimento nesse momento difícil, pelo que está para acontecer de trágico na minha vida, quando os pés puser fora daqui, dou a ultima colherada no pudim e peço a conta. Deixo para o Gravatinha sua parte, por fora, coloco um palito na boca para mastigá-lo, vou ao banheiro. Na volta, minha mesa já está tomada, por dois rapazes que ali frequentam a pelo menos umas quarenta primaveras a mais que eu. Despeço-me dos conhecidos, do Gravatinha, dos outros gravatas, peço licença e abro caminho por entre os “em pé” na porta se engalfinhando por um lugar em alguma mesa. Saio, retornando à vida, ao mundo, me perguntando se a cidade merece que o bar se mude mais uma vez.


quarta-feira, 2 de abril de 2014

Tudo

Tu és tudo, que graça, não há onde não estejas
A cada direção que olhe, és tu, que minha vista deseja
No entre acordar e dormir, entre chegar e sair,
Transcendes o relógio, o contador de horas
Transcendes o espaço, dentro de mim és pólvora

És o que não esqueço, o que não apago
És sol de praia com seu sorriso ardente
És dança na chuva, com o amigo ao lado
És presença certa em tantos sonhos
És tomar banho, cuidar da dor de dente,
Cuidar do corpo, da alma, da mente,
És tudo... a falta de limites, a inconsequência
És matéria dada na escola da minha vivência
Colo de frio, colo de saudade, a própria saudade
És batom vermelho, que não desbota, que não sai,
Que marca o peito, que mata o ego e a vaidade
És sexo: o selvagem, o improvisado, o amorzinho
E também és a inocência em brinquedo de parquinho
És o não entendo, deixa que explico, crise de ciúme
És tanto a amizade quanto a paixão envolvente
És Fernão Capelo Gaivota, és dos livros, o melhor
A vontade de voar, na gente, é maior!
És tantas mulheres juntas, em corpo único
A virgem em polvorosa beijando escondida
A mãe de família com insônia de tanto amor
A senhora sem pudores de vida bandida
A apaixonada, contando estrelas, chorando sua dor
E por falar em estrelas, és touro, constelação
Vertigem da falta de quem chamar de paixão
És batimento descompassado de um coração
A espera de quem seja de escorpião
És canções de Caetano, linda, tigresa,
Dominas o homem e o Leão
És menina desatinada do seu rapaz
És Andrômeda, dona da maior beleza
És Helena, causadora de guerras e de paz,
És samba, és ritmo, és tamborim
És coleção de sardas, óculos de gatinho,
Cabelos curtos, riso grande,
Em dias de Não, me olhas e és só Sim...

De tantos sentimentos que não cabem no peito
De um menino vadio que não sabe se comportar
És ritmo acelerado desse mesmo menino na sessão
De cinema das cinco, só pensa em beijar...

E depois do beijo, que vida lhe apresentaste,
Calma contra desespero, dor contra alegria
Distância versus prazer, gozo versus vergonha
Homem contra menino, noite versus dia
Corpo mais alma mais cabeça, gente mais animal,
Rio de Janeiro, Bangu por Ipanema, e Carnaval.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Soneto de Abandono

E de repente, como quem adormeceu por uns instantes
Me vejo sozinho, abandonado no meio de uma infinita
Estrada, sem sinalização, um sem direção constante
Que a minha existência – desde o princípio – limita

Como posso sair daqui ileso? Como, sem arranhão?
Me consome a lembrança de dias claros e amenos
Em que felicidade era companhia, e na amplidão
Dos sentimentos, éramos completos, nada menos.

Agora, maltrapilho de tanta andança sem fim
Atrás de um dia passado que me dava tanto prazer
Me sinto vazio, sem norte, sem alma, sem mim

E assim, deixa de ser uma dádiva o viver...
Penso na Morte como solução para o que não tenho mais,
E abandonado, nu e à mercê, só seu beijo frio me dá paz.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Soneto de Indiferença

Se uma única vez me negas seu olhar
Me desespero, me afogo em prantos
Se palavras já não me queres dar
Me sangro e puno em espinhos tantos

Me arrasto a seus pés, sem vergonha
Faço cena, rolo esperneio e grito,
Por mínima atenção, por um gesto
Por um "_ pare, não volto, está dito."

Me mata mais a indiferença que a certeza
De que dor e dor e dor virão me assombrar
De que teria de viver mendigo de tua beleza

Não aguento ver-te sem saber como será
Se à noite serás minha ou se usarás véu
Se queimarei no inferno ou gozarei no céu.